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Ramos, a “Capital da Leopoldina”



Foto da região que abriga hoje a Rua Uranos

A presença humana nas terras onde hoje se encontra o bairro de Ramos e boa parte da zona da Leopoldina é bastante antiga. No final do século XVI, essas terras foram divididas em duas sesmarias: a de Inhaúma e a de Irajá. Eram terras virgens, à beira-mar, boas para a lavoura e a pesca.
Vários engenhos estabeleceram-se ali, alguns famosos, como a Fazenda do Engenho da Pedra, depois chamada Nossa Senhora do Bonsucesso. Esta fazenda, que pertencia à sesmaria de Inhaúma, se estendia por toda a área dos atuais bairros de Manguinhos, Bonsucesso, Ramos e Penha.
Outra importante fazenda que ocupava a região foi a de Nossa Senhora da Ajuda, também conhecida como Fazenda Grande da Penha, e que pertencia à sesmaria de Irajá. Foi nessa fazenda que viria a ocorrer, em 1634, o milagre da Penha, que trouxe fama ao lugar.
Antes da chegada do trem, essa região comunicava-se de modo bastante irregular com o resto da cidade. As vias de ligação eram através do litoral ou de antigas estradas abertas desde os tempos coloniais. Dos caminhos e picadas que surgiram ainda no século XVII, foram pioneiras a Estrada Velha do Engenho da Pedra - hoje simplesmente Estrada do Engenho da Pedra -, e a Estrada Nova do Engenho da Pedra, cortada agora pela rua Teixeira de Castro.
Havia também outros caminhos, como o de Mariangú. Por meio dessa via, a região comunicava-se com o litoral, onde se chegava ao Cais da Pedra, referência a enorme pedra que ficava junto ao litoral e até hoje pode ser vista na praia de Ramos. A via também comunicava-se com o Porto de Mariangú, de onde partiam embarcações para o centro do Rio de Janeiro colonial, permitindo o escoamento do açúcar, aguardente, frutas, hortaliças e tudo o mais que fosse produzido nessas propriedades rurais.
Com o passar do tempo, as terras foram mudando de dono, o cultivo de cana-de-açúcar foi substituído pelo plantio do café, mas essas freguesias rurais continuavam abastecendo as áreas urbanas da cidade com a sua produção de alimentos.
Em meados do século XIX, a fazenda Nossa Senhora do Bonsucesso é desmembrada e um lote da região – que hoje forma o coração de Ramos e Bonsucesso – é adquirido pelo capitão Luiz José Fonseca Ramos, secretário da Academia Militar da Corte, que se estabelece nessas terras. E foi ali, durante o reinado de Dom Pedro II, que o bairro de Ramos começou sua história.


A Parada de Ramos


Em 1883 é criada a “Companhia Estrada de Ferro do Norte” que ganhou uma concessão do governo imperial para construir uma linha férrea que ligasse a estação de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, até a Raiz da Serra de Petrópolis.
As obras começaram no ano seguinte e quando os trilhos da estrada de ferro alcançaram as terras do velho capitão Ramos, um acordo foi firmado entre a família e a companhia férrea: os proprietários cederiam terras para a passagem dos trilhos, com a exigência de que a ferrovia construísse ali uma parada para a família. Foi assim que surgiu a Parada do Ramos.
Em 23 de outubro de 1886 foi inaugurado oficialmente o primeiro trecho da obra - que ia até próximo ao rio Meriti, limite entre o então Distrito Federal e o Estado do Rio de Janeiro - e as operações da Parada de Ramos.
Alguns anos depois, as terras da família Ramos foram vendidas para o português Teixeira Ribeiro que lotearam as terras e abriram ruas de chão batido, sem calçamento, iluminação ou esgoto, mas que foram marcos iniciais da urbanização do local.
O bairro nascedouro naturalmente adotou o nome de sua parada de trem. Surgem então as primeiras ruas de Ramos: as atuais Uranos, Professor Lacê, Aureliano Lessa, Euclides Farias, Roberto Silva e Teixeira Franco. E nelas, os primeiros casarões, onde moravam famílias ao lado de pequenas chácaras.
Por problemas financeiros a “Companhia Estrada de Ferro do Norte” foi absorvida, em 1989, pela “The Leopoldina Railway Company Ltd.” que passou a administrar a linha férrea. Não tardou muito para que as regiões atendidas pelos serviços da linha de trem passassem a ser conhecidas por “subúrbios da Leopoldina”.


O “Andorinha”


Um personagem importante na história da urbanização de Ramos foi João José Batista, conhecido como "Andorinha", caixeiro-viajante da Fábrica de Tecidos Andorinhas. Sua atividade comercial permitiu-lhe acumular fortuna, aplicada na compra de terrenos no bairro e construiu a primeira mansão de Ramos. Na sua casa costumava reunir os moradores em saraus e reuniões kardecistas, sempre com grande público.


Vila e Escola Gérson

Por volta de 1910, alguns terrenos virgens remasnecente da antiga Fazenda do Engenho da Pedra, chegaram às mãos do coronel Joaquim Vieira Ferreira, membro de ilustre família de militares. Nas terras que adquiriu, o coronel criou a Vila Gérson, onde oito ruas foram abertas aonde uma delas ia até o mar, na praia de Mariangú.
Ali, em 1911, com sua esposa Ruth Ferreira, fundou a Escola Gérson. Além do curso primário, a escola oferecia cursos para formação de tipógrafos, marceneiros e carpinteiros, atendendo as crianças pobres da área. O coronel participou ativamente da vida social em Ramos. Ele fundou o periódico O Cosmopolita, o primeiro jornal da região, que circulou entre os anos de 1912 e 1917.
Foi ele também que promovia festas e atividades recreativas na região da Praia de Ramos, o que muito contribuiu para a incorporação do hábito do lazer praiano entre os moradores da região.


Praia de Ramos


Uma das áreas de lazer mais populares da região foi a Praia de Ramos, que era conhecida também pelos antigos nomes de Praia do Apicú - que em tupi-guarani significa brejo de água salgada - e Praia do Mariangú - nome indígena das aves que habitavam a orla marítima.
No início do século XX, as pessoas já freqüentavam a praia muito em decorrência da abundancia de cajueiros e mangueiras, das caçadas aos caranguejos e da fama que aquele pedaço de terra possuía uma “lama medicinal” boa para problemas de pele e outras enfermidades. Com a criação da Vila Gérson, a freqüência da praia cresceu e trouxe para Ramos o apelido de "Copacabana do Subúrbio".
O coronel tinha projetos para urbanizar também os terrenos junto à orla, criando uma avenida paralela à praia. Contudo, a prefeitura contestou a área da Vila Gelson, por considerar que um arruamento à beira-mar estaria entrando em terras da União. O terreno foi considerado público e abandonado, mas isso não impediu que a população continuasse freqüentando a praia.
Nos anos 30, o prefeito Henrique Dodsworth realiza obras de revitalização no local e a praia chegou a ter um movimentado balneário com cabines e aluguel de trajes de banho e bóias, e até um projeto para a construção de um cassino que não chegou a existir.
No governo do presidente Dutra, parte da área foi cedida ao Iate Clube de Ramos e o poder público foi se descuidando a área ao longo dos anos.
Abandonada, nos anos 70 foi se transformando em local de banhos pouco salubres. Pouco a pouco, uma ocupação desordenada surgiu ao redor da praia, dando lugar aos primeiros barracos. A praia, mesmo poluída, permanecia na mente dos moradores, tornando-se mítica e folclórica, inspirando alguns sambas, sendo o mais famoso chamado justamente de “Praia de Ramos” (Afrânio Melo / Osvaldo Mello / Ivanyr Miranda) e gravado por Dicró.


Praia de Ramos, década de 60

Cinemas e Teatros

O lazer em Ramos não se restringia somente a ida ao balneário. Desde as primeiras décadas do século passado, o bairro contava com uma agitada e diversificada vida cultural.
O primeiro cinema da Leopoldina - e um dos primeiros do Rio de Janeiro - ficava em Ramos: era o Cinematógrafo Ideal, na Rua Uranos, inaugurado em 1914. O Cine Ramos, que primeiramente se chamou de Cine Rosário, foi outro marco do bairro construído em 1938 em estilo ar decó. O prédio foi tombado por decreto municipal em 1997.
Ramos também tinham seus teatros elegantes, e o primeiro surgiu em 1916 com a família Bassob, e ficava na Rua Barreiros.
E com os cinemas e teatros, vieram outros sinais de progresso: em 1911, a água potável, no ano seguinte, a iluminação pública - a primeira do subúrbio - e nos anos 1920, a luz elétrica, com lâmpadas de 60 velas, nas atuais ruas Uranos e Cardoso de Morais. Nessa época, Ramos era conhecida como "Capital do Subúrbio Leopoldina".

Carnaval

Os primeiros registros sobre as festividades de Momo em Ramos datam do início do século XX e tem como marco inicial a fundação do Clube Familiar Carnavalesco Promptos de Ramos em 1º de março de 1914. Outras sociedades carnavalescas não tardaram a surgir. O Clube dos Endiabrados de Ramos e o Ameno Heliotropo foram conquistando as ruas e consolidando a folia na região.
Já nos anos 30, a imprensa carioca noticiava com destaque o desfile dos Parasitas de Ramos, que levava para a mais nobre avenida da cidade, a Rio Branco, os foliões do bairro.
Graças à iniciativa da Associação de Cronistas Carnavalescos, durante as décadas de 50 e 60, foram criados os populares Banhos de Mar à Fantasia na praia de Ramos. Dos blocos que participavam da festa se destacam o Sai como Pode, Sereno de Olaria, Paixão de Ramos, Razão de Viver e o Boi da Coroa.
O carnaval na Rua Nossa Senhor das Graças teve início em 1956 com os esforços do Bloco Recreativo Sai como Pode e do Grupo do Bronqueiro. Com o passar dos anos, o Clube dos Embaixadores de Ramos, a Associação Carnavalesca Independente de Ramos e a Associação Carnavalesca Raminho aderiam a idéia e os desfiles em Ramos cresceram e se tornaram uma concorrida atração no bairro, atraindo foliões para as ruas e praças, que eram decoradas com corretos montados especialmente para a festa.


Bloco do Boi - Década de 60


Cacique de Ramos - Década de 70

Recreio de Ramos

Dentre todas estas agremiações, uma se destacou pela sua influência que se reflete no carnaval até hoje. A Escola de Samba Recreio de Ramos surgiu em 1931, e tinha entre seus fundadores Armando Vieira Marçal, que foi vice-presidente da escola.
Lá ocorriam afamadas rodas de samba que eram freqüentadas por sambista e músicos como Mano Décio da Viola, Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e outros.
Marçal lançou muitas composições nas rodas do Recreio, e o seu maior êxito foi “Agora é Cinza”, composta em parceria com Bide. Este samba foi gravado por Mário Reis e acabou se tornando o seu maior sucesso.
O Recreio de Ramos teve uma importante participação musical do maestro Heitor Villa-Lobos. Os compromissos que o levaram a Ramos, também levaram o maestro a encantar-se com uma jovem normalista, caçula de uma família moradora do bairro. A fim de manter-se próximo da área de influência de sua pretendente, Villa-Lobos aderiu entusiasticamente às fileiras do Recreio de Ramos, que desfilava pelo centro da cidade.
Após alguns anos de atividades, o Recreio começa a se esvaziar até deixar de desfilar no final da década de 50. Seu desaparecimento provoca o surgimento de duas novas agremiações: uma, de forma direta – a escola de samba Imperatriz Leopoldinense em 1959 – e outra indireta – a criação do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, fundado em 1961.


Pixinguinha

É sempre bom lembrar que os pendores de Ramos para a música eram reforçados pelo fato de Pixinguinha morar em Ramos. Sua modesta casa na Rua Belarmino Barreto, estava sempre de portas abertas aos músicos, e seu quintal era palco de noitadas seresteiras e animadas rodadas de choro. Em 1956, a Rua Belarmino Barreto, passou a se chamar Pixinguinha quando o prefeito Negrão de Lima decidiu homenagear o ilustre morador de Ramos.
Sempre ligado a comunidade que sempre o reverenciou, compôs em 1965, o “Hino de Ramos”.


Ramos hoje

Se no começo de 1900, Ramos começava a abandonar sua herança rural, tendo sido por muitos anos locais de moradia pacata e tranqüila, nas últimas décadas o bairro têm vivido altos e baixos. Nesse sentido, é preciso mencionar a abertura da Avenida Brasil, em 1946, que trouxe o progresso rápido e, com ele, muitas mazelas. O comércio e a indústria viriam a aumentar bastante suas atividades, mas a ocupação desordenada dos morros adjacentes acabou lentamente por dar lugar às favelas do Complexo do Alemão. A região onde outrora ficava a Copacabana do Subúrbio viu, por sua vez, surgir o Complexo da Maré. Hoje as autoridades se esforçam em programas para melhorar a área e integrá-la ao resto da cidade.

Hoje, se alguém pergunta o que existe em Ramos logo a resposta aparece: o piscinão. Mas há muito mais: caminhando pelas ruas bairro, aqui e ali poderemos ouvir o batuque do samba e do pagode, encontrar moradores orgulhosos e identificados com o seu bairro e ainda deparamos com casas de antigas chácaras, da época em que o bairro abrigava as principais famílias da elite leopoldinense.

Alexandre Medeiros

 
 

 

 
   
 
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