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Arlindo Rodrigues: o popular erudito |
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"Querem ficar nus no carnaval? Então é melhor irem para Cabo Frio. E tem mais: a fantasia tem forro e a gola tem dez metros de tule franzido em cada volta. Raspem o bigode e deixem os óculos em casa, pois, afinal trata-se de um pierrô." |
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"Eu me nego a cobrir tudo o que faço com cachos de bananas e abacaxi só para parecer brasileiro... Ora, me deixe pintar o que eu quero e depois examine se minha arte tem qualidade." |
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"Os pseudo-intelectuais e os esnobes acham que escola de samba para ser boa tem que ter mau gosto, o que não é verdade." |
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Estas três falas, pinçadas do rico anedotário do universo carnavalesco de Arlindo Rodrigues, sintetizam, primeiramente, sua personalidade forte e o seu caráter perfeccionista. Resumem também o seu papel como intercessor entre as diversas culturas, defendendo a arte como uma só, sem distinção entre o erudito e o popular, entre belas artes e artes utilitárias. Com efeito, Alindo defendeu, durante três décadas, o reconhecimento dos elementos visuais concebidos para os desfiles das escolas de samba como legítima manifestação das artes plásticas brasileira, em nada menor do que aquela para a qual o sistema e a crítica da arte reservam espaço nos museus e galerias.
Arlindo Rodrigues foi um dos mais famosos, brilhantes e requisitados cenógrafos e figurinistas brasileiros. Sua contribuição para as artes cênicas nacionais revelou-se enorme, tanto no teatro quanto na televisão, onde também foi diretor e roteirista. A base da sua criação veio não somente do aprendizado nos bastidores do Theatro Municipal, dos anos 1950, mas também do contato direto deste artista autodidata com as tradições populares do país. Arlindo nunca estudou formalmente indumentária, cenografia, arquitetura ou escultura, mas era reconhecido como uma das maiores autoridades das artes cênicas brasileira. Entretanto, foi através da suas criações para o carnaval – desde as decorações de bailes e ruas até os desfiles das escolas de samba – que o artista tornou-se mais popularmente conhecido, brindando a cidade do Rio de Janeiro com momentos mágicos de criatividade. Em 1960, quando trabalhava como assistente de cenografia, Fernando Pamplona lhe convocaria para realizar desenhos de fantasias dos Acadêmicos do Salgueiro, cujo enredo era “Quilombo dos Palmares”. O sucesso foi tamanho que Arlindo permaneceu na escola de samba até 1972. Seu enredo “Chica da Silva” (1963) deu o primeiro campeonato que o Salgueiro conquistou sozinho, um marco na história do carnaval carioca. A sua criação plástico-visual fixou um novo padrão para os desfiles carnavalescos, que se disseminaria no Brasil e no exterior. O conceito de desfile de escola de samba muda consistentemente e a importância do evento salta, de forma definitiva, de uma escala local para global. O desfile das escolas de samba talvez não tivesse alcançado a qualidade estética que tem hoje se não fosse a guinada que Arlindo propiciou no Salgueiro dos anos 1960.
Depois de ter deslumbrado a cidade com criações para a Mocidade Independente de Padre Miguel a partir de 1974, com “A festa do Divino”, e conseguido conquistar o primeiro campeonato desta escola em 1979, com “O descobrimento do Brasil”, foi nos anos 1980, na Imperatriz Leopoldinense, que Arlindo revelou-se no auge da maturidade artística. Logo em 1980 e 1981, a Imperatriz sagra-se bicampeã com dois desfiles consagradores criados por Arlindo, nos quais originalidade e luxo, cores e brilhos se completavam numa harmonia invejável. Em “O que é que a Bahia tem” (Imperatriz, 1980), o artista deixava clara a poética de seu trabalho artístico em vários detalhes, dentre os quais as profusões de babados de rendas, as falanges de anjos e o contraste do colorido das alegorias que parecem emergir das massas brancas formadas pelas alas. “O teu cabelo não nega: só dá Lalá” (Imperatriz, 1981) é tido como um dos cinco maiores carnavais de todos os tempos pela crítica especializada, dada à riqueza de detalhes e a mistura do jocoso e do brejeiro com o lúdico, a graça e o luxo. No ano seguinte, a cultura e o folclore brasileiros foram revisitados pela imaginação de Arlindo com tamanha riqueza plástica em “Onde canta o Sabiá” (Imperatriz, 1982) que a cidade concluiu que não mais poderia prescindir de um museu para se preservar a arte produzida para o carnaval. Seu último trabalho como carnavalesco foi uma homenagem à “Estrela Dalva de Oliveira” (Imperatriz, 1987), no qual a vida da cantora foi curiosa e ousadamente contada passo a passo, como numa história em quadrinhos, através de cenas montadas com manequins, partindo-se de um pequeno berço cor-de-rosa rodeado por dúzias de anjos.
Se o desfile das escolas de samba é e uma ópera popular que se configurou no maior espetáculo da terra, como definia Amaury Jório, fundador da Imperatriz Leopoldinense e idealizador do Sambódromo, Arlindo Rodrigues foi o seu maior regisseur e um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, melhor exemplo de mediador entre as diversas expressões da cultura do nosso país.
Ricardo Lourenço
Pesquisador de carnaval, especialista em Teoria da Arte, e curador da exposição “Arlindo Rodrigues: carnavais de arlequins e querubins” (1998).
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